quinta-feira, 11 de junho de 2015

O estresse e a resiliência dos caminhoneiros

A procura por empregos autônomos vem ganhando força em nossa sociedade. Um exemplo deste fenômeno é a profissão de transportador de carga rodoviária, conhecida também por “caminhoneiro”. Esta profissão contempla o profissional autônomo, o cooperativado ou o empregado. Porém, nos últimos anos, este profissional está no ranking de profissões mais “estressantes” do Brasil.

    Toda mudança exige ou resulta em uma adaptação, e o estresse está associado a isso. Nesta época de intensas e rápidas mudanças, uma atividade social que vem obrigando o ser humano a se adaptar drasticamente é o mercado de trabalho, cada vez mais competitivo e exigente.
De acordo com Abreu e Oliveira (2014) as exigências da vida contemporânea transformaram a palavra “estresse” numa das mais pronunciadas mundialmente. Não há quem, independentemente de nível econômico ou de faixa etária, fique imune às pressões do dia-a-dia. A função do estresse não é causar doença e sim, preservar a saúde em crise, visto que pode colaborar para a defesa do corpo humano contra situações prejudiciais. Desta forma, além de não ser possível se livrar do estresse, não é aconselhável. Contudo, é possível administrar os malefícios causados por ele, que podem ocorrer quando o mecanismo é acionado cronicamente, o que pode levar a uma série de doenças.
Para isso, é necessário que o indivíduo tenha desenvolvido sua autoconsciência e sua capacidade de resiliência, o que é muito difícil de ser alcançado. Um indivíduo submetido a situações de estresse pode ser comparado a um edifício, que não suportando sua tensão pode apresentar rachaduras (nos seres humanos seriam as doenças). Para vencer sem lesões, é necessário que o caminhoneiro adquira uma postura resiliente, ou seja, é necessário que alcance através do equilíbrio, entre a tensão e a habilidade de lutar, além do aprendizado obtido com obstáculos (sofrimentos), a estrutura de um carpete, que quando comprimido adquire as formas mais diversas e retorna ao estado inicial, após pressões exercidas sobre si. 

Fonte:
ABREU, J.A.; OLIVEIRA, V. M. Como reduzir e administrar o estresse em caminhoneiros. 2014. Disponível em <http://www.psicopedagogia.com.br/new1_artigo.asp?entrID=1740#.VXoz8vlVikr> Acesso em 10/06/2015.


A influência da baixa escolaridade nos fatores de risco na vida do caminhoneiro

A proposta do post de hoje é compartilhar uma revisão mediante a uma pesquisa bibliográfica que salienta a caracterização e a vulnerabilidade socioeconômica dos motoristas de caminhões, que servirá como base para o tema de hoje – a influência da baixa escolaridade nos fatores de risco na vida do caminhoneiro – onde iremos salientar uma maior atenção voltada a esta classe a fim de aprimorar a qualidade de vida desses profissionais.


Como já exposto no blog, os caminhoneiros são de extrema relevância para a sociedade em geral e são considerados profissionais importantes no desenvolvimento econômico, político e social para o progresso do nosso país. A categoria profissional dos motoristas de caminhão torna-se importante para propostas de intervenção para prevenção de riscos de infecções de acordo com seus estilos de vida, levando em consideração que no Brasil, o transporte rodoviário é, sem dúvida, um dos principais meios de locomover as riquezas produzidas neste país.
A pesquisa de campo realizada por Batista e Persch (2008) desenvolvida no Município de Cacoal/RO, com caminhoneiros de estradas, identifica a questão dos agravos de saúde mais comuns nos motoristas de caminhão verificando a percepção que os caminhoneiros têm sobre DST/HIV/Aids e uso de drogas, que proporcionou o conhecimento das questões de vulnerabilidade voltadas a estilo de vida, à sexualidade, doenças transmissíveis e drogas entre os caminhoneiros.
A pesquisa mostra em seus dados a questão da baixa escolaridade dos caminhoneiros, onde o resultado mostrou que conforme a idade do caminhoneiro, o nível de escolaridade mantém-se bastante baixo, pois 35% não possuíam o ensino fundamental completo, constatando a partir da pesquisa que o nível de escolaridade era inversamente proporcional, pois quanto maior a idade do entrevistado menor o nível de escolaridade.
Podemos perceber a influência da baixa escolaridade nos fatores de risco na vida desses profissionais, pois o estudo concluiu que o envolvimento em relações sexuais no período de trabalho é relevante entre esta categoria de trabalhadores; e que uma grande maioria, detêm o conhecimento das práticas de prevenção, mesmo assim, acabam se envolvendo com profissionais do sexo, a fim de procurar companhia e acabar com a solidão ocasionada por longos períodos na estrada, e que permanência contínua ao volante do caminhão, ajuda o aumento do uso de drogas psicoativas acarretando maiores danos à sua saúde.
A baixa escolaridade, juntamente com a grande mobilidade geográfica dos caminhoneiros, pode servir como disseminadores de doenças infecciosas, princi­palmente aquelas transmitidas sexualmente, visto que a baixa escolaridade é proporcional ao nível de conhe­cimentos sobre prevenção de DST/AIDS (TELES et al., 2008).
Após o relato da pesquisa, é possível concluirmos que, a baixa escolaridade dos caminhoneiros é uma realidade a ser melhor estudada ao influenciar o risco de vida dos mesmos, dessa forma, faz-se necessário uma maior atenção na promoção de saúde, que segundo Fontura (2003) promover saúde é, então, lidar com a mobilização social e aceitar o desafio de manifestar um processo amplo e complexo de participação popular, parcerias e atuações intersociais.
A promoção à saúde se dá através de ações que propiciem mudanças de atitudes; o que nos remete à educação, no aprimoramento na qualidade de vida desses profissionais e na iniciativa a educação formal, bem como fornece conhecimento acerca dos fatores que alteram a qualidade de vida e a saúde dos dessa classe e dos seus familiares.
    O papel do profissional de psicologia de acordo com Fontura (2003) é compreender o processo da constituição do sujeito como dialético e histórico, se dá em ações que promovam a transformação das relações sociais sobre o mundo cotidiano. Sua atuação deve estar pautada nas práticas interdisciplinares, tomando como objeto a promoção de saúde, realizando a interlocução dos conhecimentos da Psicologia e a interseção nas relações institucionais, que implicam as dimensões políticas e ideologias. 



Fontes:
BATISTA, Elizeth Souza; PERSCH, Fabiane Cristina. Caracterização sócioeconômica e cultural de caminhoneiros de estradas freqüentadores do Auto Posto Machadão em Cacoal-RO. Cacoal, RO. Trabalho de Conclusão de Curso; FACIMED, 2008, 15p.

FONTOURA, L. V. Material produzido para a oficina de Educação e Saúde, do I Seminário Regional de tenção Básica em Saúde: saúde mental, desafios emergentes. FEHH: Ibirama/SC, 2003.

TELES, A. S. et al. Comportamentos de risco para doenças sexualmente transmissíveis em caminhoneiros no Brasil. Rev Panam Salud Publica, v. 24, n. 1, p. 25-30, 2008.


Transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento do trabalho

De acordo com Resende, Sousa et. al (2010) o caminhoneiro brasileiro é um profissional que percorre longas distâncias, dorme na boleia do caminhão, alimenta-se mal, não tem segurança e conforto. A consequência disso é a baixa autoestima e a sensação de marginalização vivida por esses profissionais, gerando problemas sociais ao país.
Em contrapartida, os caminhoneiros atuam de forma preponderante para o crescimento econômico do país, transportando todo tipo de mercadorias, para atender as necessidades da população. Sua jornada de trabalho é frequentemente longa, com sono de baixa qualidade e exercícios físicos insuficientes (TAYLOR; DORN, 2006). Portanto, se encontram vulneráveis às desordens psicológicas devido a essas situações particulares de estresse inerentes a profissão.
De acordo com levantamentos realizados pela previdência social de 2008 para cá, os transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamentos de trabalho no Brasil, perdendo apenas para as doenças do sistema osteomuscular, caso da LER (Lesão por Esforço Repetitivo), e as lesões traumáticas. Dentre os transtornos, o mais comum é a depressão, seguido de ansiedade ocasionada por estresse pós-traumático (surgindo depois de acidentes graves com risco de morte).
Muitas vezes essas patologias se desenvolvem a partir do que se chama de estresse ocupacional. Tendo como exemplo cumprir metas abusivas, cobranças e riscos, e a pressão que se forma leva às alterações. O profissional caminhoneiro entra para o grupo de risco devido a prazos abusivos de entrega, violência nas estradas, a falta de segurança em postos, os assaltos e sequestros relâmpagos, sobretudo na madrugada.
        Dessa forma, se faz necessário a implementação de ações que visem contribuir para a melhoria de saúde física e emocional desses profissionais.


Fontes:

RESENDE, P. T. V.; SOUSA, R. S.; SILVA, J. V. R. Fontes de tensão e estresse nos caminhoneiros brasileiros: uma análise a partir do modelo occupational stress indicator. Simpoi 2010.


Cuidado, vínculo e família. Que importância tem?

No Caderno de Atenção Básica-Saúde Mental (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013) abordam-se diversos temas, um deles que ressaltamos a importância é sobre o cuidado e a família. 
 A família é um sistema que está constantemente conectado a outros setores da sociedade, onde se compartilham relações:  de desenvolvimento,  afeto, convívio,  de  parentescos sanguíneos ou não, e que em meio a essas questões estão  passíveis a crises.
Não existem famílias iguais, cada configuração e papéis dentro de um lar é distinto do outro, onde cada membro da família dá sentidos e significados singulares. Devido sua importância na constituição de um sujeito, esta é uma aliada também no que diz respeito ao cuidado, principalmente quando este está em sofrimento psíquico.


No caso dos caminhoneiros devido as longas viagens, estradas ruins, curtos prazos para entrega das cargas, sono em turnos alterados e/ou falta deste, distância da família por semanas, má alimentação e até uso de substâncias psicoativas lícitas ou não, podem ser geradoras de sofrimento nestes sujeitos, assim como em seus familiares.
O profissional da saúde tem como um de seus papéis realizar o acolhimento das famílias, e juntamente à elas, identificar as situações de risco, vulnerabilidade, pensando e estruturando maneiras da família potencializar o que tem de melhor, através de um projeto terapêutico, sem estigmatizar ou julgar os sujeitos. Podendo este contato iniciar com uma visita da agente comunitária de saúde, da qual faz visitas mensais nas residências.
Com vínculos familiares fortes, potencialização da família e dos papéis desenvolvidos por cada membro, auxiliam o sujeito a reconfigurar-se em meio ao sofrimento, visto que a potencialidade é um fator de proteção.


Fonte:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de atenção básica- saúde mental. Brasília, Ed. 34. 2013.


Para descontrair...





Fonte: Imagens do GOOGLE.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Rebite está ficando ultrapassado. A nova moda é crack e cocaína.

A utilização do rebite por parte de muitos caminhoneiros não é novidade. O problema agora está se tornando mais grave, o rebite está sendo substituído por crack e cocaína. A reportagem a seguir nos mostra isso.



Caminhoneiros trocam rebite pela cocaína para trabalhar mais
A cocaína se transformou no novo “estimulante” dos caminhoneiros que trafegam pelas rodovias brasileiras. Estudos comprovam que os profissionais estão trocando a anfetamina pelo pó na ilusão de que poderão suportar por mais tempo as longas jornadas de trabalho, que muitas vezes se estendem por mais de 16 horas. Levantamento da Universidade de São Paulo (USP) e de instituições ligadas ao trânsito mostram que pelo menos 33% dos motoristas de caminhão utilizam entorpecentes para cumprir a carga horária. 
(...)
Os motoristas são levados a acreditar que a cocaína deixa a pessoa acordada por mais tempo do que a anfetamina. “Eles chegam a dizer que o pó pode fazer com que o caminhoneiro fique 90 horas dirigindo e estas pareçam mais curtas, evitando o cansaço”, conta Juarez, com 20 anos de profissão. 
“Não critico quem consome essa droga, mas acho uma judiaria o que fazem com o próprio organismo”, lamenta. A diferença no preço faz parte da tática dos traficantes para atrair os consumidores. Uma buchinha, com cerca de um grama de cocaína, custa entre R$ 15,00 e R$ 20,00. Já a cartela de rebite, com oito a dez comprimidos, é vendido por R$ 60,00. Para Juarez, no final, o caminhoneiro paga quase a mesma coisa. “Fica apenas a ilusão de que com uma ou duas buchinhas irá mais longe”, observa.
Texto dos repórteres Paulo Roberto Tavares e Cíntia Marchi. 
Para ler a reportagem completa acesse Correio do Povo.

Outras reportagens relacionadas:
     Caminhoneiros em MG dirigem sob efeito de drogas e 36% usam remédio para dormir 


Entrando nos eixos

De acordo com uma pesquisa realizada por Masson e Monteiro (2010) no CEASA (Entreposto Hortifrutigranjeiro de Campinas) com 105 motoristas de carga, as informações sociodemográficas mostram que os sujeitos eram homens, mais da metade eram casados e tinham filhos, bem como eram os principais provedores do lar. Com jornadas de trabalho exaustivas, podendo chegar à 16 horas dirigindo, em apenas um dia.
Cumprindo prazos curtos para as cargas não perecerem, percorrido por rodovias esburacadas, sempre em alta vigilância no transito, sofrendo discriminação nos postos de combustível, restaurante e nas próprias rodovias, e ainda convivendo pouco com a família, questões que colocam estes profissionais em grande vulnerabilidade ao estresse.
Pode-se perceber que há um desequilíbrio na vida dos caminhoneiros, as esferas da vida são desarmônicas, aspectos da vida social e convivência familiar, assim como seu próprio bem-estar quase não fazem parte do cotidiano destes sujeitos.
     Embora vários caminhoneiros tenham muito prazer pela profissão que optaram, é necessário que sejam discutidos aspectos referentes a promoção de saúde, específica para a categoria, para que possam desfrutar de momentos de convívio social e familiar (fora da estrada), assim como os acesso a lazer e sono de qualidade.

  
Fonte:
MASSON, Valéria Aparecida; MONTEIRO, Maria Inês. Estilo de vida, aspectos de saúde e trabalho de motoristas de caminhão. Rev. bras. enferm.,  Brasília ,  v. 63, n. 4, p. 533-540, Aug.  2010.